Discurso de Sua Excelência o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, por ocasião da entrega da Medalha Dourada do Município de Cinfães.

Senhor Presidente da Assembleia Municipal de Cinfães,
Senhores Vereadores e Deputados Municipais,
Caros Amigos,
Minhas Senhoras e meus Senhores,

É para mim uma honra enorme (e no início foi uma surpresa inesperada e agradável) receber a medalha de ouro do Município de Cinfães;

porque embora não tendo, acidentalmente, nascido aqui, foi nesta Vila que cresci, recebi as primeiras letras, tive um dos dois professores que mais me marcaram na vida e viciei-me naquilo que, ainda hoje, é para mim o policromado da beleza natural (o relevo acidentado da serra, a água que nos rodeia por todo o lado, a arborização verdejante típica dos terrenos graníticos onde a impermeabilização do subsolo permite lençóis freáticos e, por extensão, a vegetação exuberante em cada curva da estrada e as variedades de verde que, da primavera ao outono, se transmutam numa cor de fogo ou num amarelo desmaiado intransponíveis para qualquer outro sítio).
Tivemos a sorte (eu e as minhas irmãs) de nascer numa família de contrastes que, suponho, só nos enriqueceu: um lado materno oriundo daqui, de Cinfães e de Alvarenga, e um lado paterno oriundo de Lisboa onde nasceu e se aculturou meu pai; hábitos, visões e aculturações diferentes que ambos tinham porque provindos de terras tão díspares, souberam eles, porém, fundi-los de forma equilibrada com uma tolerância mútua, e uma exigência ética no seu comportamento diário que nos marcou pela vida fora.
O Porto continuou depois a trilogia da minha vida; nascido aí por imposição médica já que tivera um irmão mais velho que morreu cedo e os médicos suspeitavam de dificuldades no novo parto, o Porto acabou por ser uma referência incontornável naquela idade da inocência em que nos abrimos para o mundo.
Em Cinfães fizera a escola primária e tivera como professor um homem que jamais esqueci: o professor Fernandes, um génio poético e musical perdido no Portugal rural e atrasado de então, que me ensinou a descoberta de um novo território - o da escrita - e me deixou, de si, uma recordação de fascínio indiscritível que ainda hoje perdura.
A sua morte, tinha eu oito anos, foi o primeiro contacto directo com a dor e a consciência de que com ela se perde para sempre aquilo que jamais se recupera.
No Porto, a seguir, fiz todo o liceu.
De início foi difícil adaptar-me à cidade; mas depressa se cumpriu aquela frase publicitária célebre de Alexandre O''''''''Neil: "primeiro estranha-se, depois entranha-se".
E o Porto entranhou-se para sempre na minha vida; no Porto me fiz homem, vivi intensamente a variedade dos seus bairros e suas ruas a ponto de, ainda hoje, ter vivas na memória, cenas intensas calcorreadas por todos eles, acordei definitivamente para a política (no seu sentido mais nobre) quando, aos catorze anos, assisti (ora de longe, ora de perto violando proibições familiares) ao vendaval indescritível que foram as eleições de Humberto Delgado, cuja passagem pela cidade, em 14 de Maio de 1958, marcou o verdadeiro Katrina da nossa história recente.
Mas o Porto deu-me ainda, no meu tempo liceal, o outro professor que me ensinou de vez o saber pensar, o saber tolerar, o saber duvidar das nossas certezas absolutas, o saber testar a nossa parcialidade com o contraditório dos outros, deixando (penso eu) em todos os da minha turma um rasto inapagável: o grande Óscar Lopes, cunhado de Jorge de Sena, o escritor perseguido e exilado.
Ele foi, verdadeiramente, para mim a reencarnação dos sábios da antiga Grécia.
Lisboa foi, a seguir, o fecho do triângulo do meu espaço.
Fiz os estudos universitários na cidade do meu pai que, à época, me era já familiar.
Desde miúdo, a Páscoa, passávamo-la em Lisboa, o mês de Setembro a minha família paterna passava-o em Cinfães, por vezes, em Agosto, fazíamos praia, todos juntos, em Cascais, por vezes os meus primos lisboetas - quando não tinham exames - vinham para Cinfães em Junho e Julho.
Da Lisboa do meu tempo infantil retenho imagens imperecíveis: a feira popular onde é hoje a Gulbenkian, as idas ao teatro de revista (á época não havia limite de idade para entrar) ver os inesquecíveis António Silva, Costinha, Ribeirinho, e talvez - acima de todas essas imagens - Almada Negreiros, dependurado, pintando os vitrais da Igreja de Nossa Senhora de Fátima.
As estadias subsequentes que passei já crescido em Lisboa (parte do serviço militar, a faculdade, a vice-presidência do Conselho Superior de Magistratura e a Presidência do Supremo Tribunal de Justiça que me trazem, no conjunto, quase 15 anos de vivência na cidade), essas estadias, dizia, deram-me tão-só o lento avatar de uma cidade que, de há muito, descodificara.
Porque, verdadeiramente, sempre preferi viver no norte, entre um Porto operário, burguês e de cultura inglesada algo entranhada em certos estratos portuenses e esta Cinfães duriense que era o regresso a esse "Rosebud" que Orson Welles imortalizou em "Citizan Kane".
As deambulações por este triângulo da vida (Cinfães, Porto, Lisboa) mostraram-me, para sempre, a disparidade trágica de Portugal entre regiões ricas e regiões pobres, entre cidades beneficiadas e cidades ou vilas prejudicadas, entre um país macrocéfalo (que ainda hoje tem 51/52/53% dos fundos comunitários adstritos a Lisboa) e o resto à deriva, e que tem marcado o nosso atraso permanente.
Com tudo isto, cedo me tornei regionalista indefectível muito antes, sequer, de disso se falar.
Portugal tem, ainda agora, três macro-regiões distintas que (a fazer fé em Orlando Ribeiro) correspondem a civilizações ancestrais da península: um sul plano e mediterrânico, um interior norte próximo dos povos da meseta e um noroeste pluvioso e de vestígios celtas; foi esta disparidade que o poder central sempre desprezou, preocupado em criar uma grande capital à escala das grandes cidades europeias e deixando tudo o resto para segundo plano.
A vida tem, porém, as suas ironias.
Há três anos atrás, o juiz Costa, Presidente do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, numa visita a Lisboa, e conversando comigo em plena baixa pombalina, dizia-me o quanto gostava de revisitar Lisboa porque era uma cidade média, não muito grande, onde ainda se podia viver com alguma qualidade de vida, longe das megametrópoles europeias que ele se via obrigada a calcorrear.
Ou seja, a grande cidade que muitos quiseram cinzelar à imagem das estrangeiras, não passava, para aquele juiz cosmopolita, de uma cidade média, espelho, afinal, da nossa falsa modernidade.
Com um engodo assim, hipotecamos o desenvolvimento equilibrado de um país tão bonito.

*

Senhor Presidente da Câmara Municipal de Cinfães,

Quando o círculo da vida nos vai fazendo regressar insensivelmente ao ponto de partida, e de súbito tomamos consciência que o tempo também passou para nós, e que chegou o tempo dos nossos filhos, os horizontes estreitam-se porque o que sobressai é a pequenez do que ainda nos sobra.
É o tempo da colheita nas escolhas finais que nos faltam.
E essa é, provavelmente, a razão maior que me tem trazido, cada vez com mais frequência, a Cinfães ainda que à custa, por vezes, de um cansaço físico de quem vem de longe mas que, ao chegar aqui, se desvanece por um passo de magia.
Porque quando se chega a esta idade, há diagnósticos fáceis de fazer; e um deles é o de já ter percebido que, na recta final, o meu mundo se estreitará entre Cinfães e o Porto, as duas terras onde verdadeiramente nasci para a vida, e de onde verdadeiramente me sinto munícipe.
Ítalo Calvino disse um dia que nunca se deve regressar ao sítio onde se foi feliz.
Um erro penso eu: porque quero regressar onde fui feliz.
Por tudo isto, muito obrigado ao Município de Cinfães, pela honra desta homenagem, na pessoa dos seus ilustres Presidentes da Câmara e da Assembleia Municipal.

Luís António Noronha Nascimento
10 de Dezembro de 2010

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